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Mortalidade

3.  MORTALIDADE

A mortalidade define-se como a acção da morte sobre uma população e é um dos componentes centrais da dinâmica demográfica. O ritmo no qual ocorrem os óbitos numa população varia muito entre as diversas regiões do mundo, grupos sócio-económicos, sexo, etc. A maneira como as pessoas morrem é uma boa representação das condições nas quais vivem.

O Quadro 3.1 mostra diversos indicadores de mortalidade para Moçambique segundo o IIRGPH. A primeira medida, a taxa bruta de mortalidade, é simplesmente a razão entre o número de óbitos ocorridos num ano e a população estimada para meados desse ano. Esta taxa, com um valor de 21.2 por 1,000, embora seja de fácil cálculo, tem a desvantagem de ser muito afectada pela estrutura etária da população.


QUADRO 3.1: Indicadores seleccionados de mortalidade por sexo segundo área de residência, Moçambique, 1997

Taxa bruta de mortalidade (por mil)
Total
21.2 23.1 19.5
Urbana
14.3 15.4 13.1
Rural
24.0 26.3 22.0
Esperança de vida ao nascer
Total
42.3 40.6 44.0
Urbana
48.8 46.7 51.0
Rural
40.2 38.6 41.9
Esperança de vida aos 10 anos
Total
47.2 45.4 49.0
Urbana
49.5 47.5 51.6
Rural
46.3 44.6 48.0

 


O indicador mais utilizado para medir a mortalidade é a esperança de vida ao nascer. Este indicador mostra o número de anos que se espera que uma pessoa nascida num determinado ano viva, em média, se as condições de mortalidade existentes permanecerem constantes. Quanto menor for a mortalidade, maior será a esperança de vida ao nascer. A nível mundial, a esperança de vida ao nascer é, em média, de 64 anos. Nos países industrializados, onde se iniciou a queda da mortalidade, a esperança de vida actual é de 74 anos. Não obstante, nos países em desenvolvimento a esperança de vida é de 62 anos, e na Ãfrica Subsariana, região que exibe os níveis de mortalidade mais elevados do mundo, é apenas de 51 anos. Mais de metade dos países da parte continental dessa região africana ainda tem uma esperança da vida ao nascer abaixo dos 50 anos.

Em Moçambique, a esperança de vida ao nascer é de 42.3 anos para ambos os sexos, sendo 40.6 anos para os homens e 44.0 anos para as mulheres. Em geral, na maioria dos países do mundo a esperança de vida ao nascer é menor para os homens do que para as mulheres. Na literatura respectiva não há unanimidade sobre o peso de factores biológicos ou sociais nesta tendência. De qualquer forma, as esperanças de vida ao nascer estimadas para Moçambique indicam um elevado nível de mortalidade. É importante notar que este elevado nível está determinado principalmente pela mortalidade na infância. Se esta experimentasse uma queda substancial, a esperança de vida ao nascer aumentaria significativamente.

Considerando o grande peso que a mortalidade na infância tem na esperança de vida ao nascer, é também importante considerar a esperança de vida de outras idades. No Quadro 3.1 foi incluída a esperança de vida aos 10 anos. Este valor indica o número de anos que se espera que uma pessoa viva, em média, depois de atingir tal idade. É importante salientar que, neste caso, a esperança de vida aos 10 anos é superior à esperança de vida ao nascimento (47.2 contra 42.3 anos, respectivamente); este facto indica a elevada influência da mortalidade na infância na mortalidade global. Em outras palavras, as crianças que sobreviveram os primeiros anos de vida têm, em média, mais anos de vida por diante que as recentemente nascidas.

O Quadro 3.1 também mostra os indicadores de mortalidade segundo área de residência. A diferença entre a esperança de vida ao nascimento entre as áreas rurais e urbanas é importante: 48.8 anos nas urbanas e 40.2 anos nas rurais, o que corresponde a uma diferença de 8.6 anos. Similares desigualdades podem ser observadas entre as esperanças de vida ao nascimento correspondentes aos homens e às mulheres. Esta diferença na mortalidade entre áreas urbanas e rurais pode dever-se a uma maior disponibilidade de serviços de saúde nas primeiras. Entretanto, também pode influir o nível educacional mais elevado da população urbana (ver secção 8) e o possível melhor nível de vida da mesma quando comparada com a rural. No que diz respeito à esperança de vida aos 10 anos, as diferenças entre áreas urbanas e rurais é inferior que no caso da esperança de vida ao nascimento (3.2 contra 8.6 anos). Segundo o explicado acima, esta menor diferença entre os sectores urbano e rural indica que a mortalidade na infância é um dos principais componentes da maior mortalidade observada nas áreas rurais do País.

O Gráfico 3.1 mostra três indicadores da mortalidade nos primeiros anos de vida. O primeiro, a mortalidade infantil, cujo valor é de 145.7 óbitos em cada 1,000 nascidos vivos, define-se como a probabilidade de morrer antes de completar o primeiro ano de vida. Este é um dos indicadores mais adequado do nível de desenvolvimento sócio-económico e do estado de saúde duma população. O segundo, a mortalidade pós-infantil, refere-se à mortalidade das crianças de 1 a menos de 5 anos. O valor deste indicador para Moçambique é de 116.9 por 1,000. O último, a mortalidade na infância, é a combinação da mortalidade infantil e pós-infantil; o seu valor é de 245.6 por 1,000. Assim, a mortalidade nos primeiros cinco anos de vida é extremamente elevada em Moçambique.

 


O Gráfico 3.2 mostra os anteriores três indicadores da mortalidade nos primeiros anos de vida segundo área de residência. À semelhança do que acontece com a esperança de vida ao nascimento, as diferenças são consideráveis. Por exemplo, a mortalidade na infância nas áreas urbanas é de 166.3 óbitos por 1,000 nascimentos e nas rurais 270.2; isto corresponde a uma diferença de 62.5%. No caso da mortalidade pós-infantil a diferença urbana-rural é de 80.7% e da infantil de 58.3%.

 


Vale a pena fechar esta secção mencionando que na maioria dos países do Terceiro Mundo a mortalidade pós-infantil (1 a 4 anos de idade) cai para um terço ou ainda para um quarto da mortalidade infantil (0 a 1 ano de idade). Entretanto, na maioria dos países da Ãfrica Subsariana as taxas de mortalidade pós-infantil são apenas menores, ou ainda semelhantes com as taxas de mortalidade infantil. Note-se que no caso de Moçambique, a mortalidade pós-infantil (116.9) é apenas 24.6% inferior à infantil (145.7). Um dos possíveis determinantes deste padrão é a interrupção da amamentação num contexto de salubridade pouco segura, o que aumenta a exposição das crianças aos agentes infecciosos e parasitários; também a partir deste momento começa a concorrência pela comida, especialmente em famílias numerosas. Os frequentes episódios diarréicos combinados com os elevados níveis de desnutrição aguda e crónica contribuem largamente para a subida da mortalidade durante essa etapa da vida. Além disso, é importante reconhecer os efeitos negativos da malária e de doenças respiratórias.