Duvidas e Respostas Sobre o CAP
A Duvida (De: Machado da Graça)
Bom dia amigo Belmiro
Como estás? E a tua família?
Do meu lado tudo bom, como diz a publicidade
azul.
Só que há coisas que, apesar da minha idade,
ainda me espantam.
Como sabes, moro num segundo andar de um
prédio de “flats”, aqui na Polana Cimento.
Pois há dias tocaram à minha porta e fui abrir.
Era uma simpática jovem, que se identificou
claramente como funcionária do Instituto Nacional
de Estatística e me informou que andava a fazer
entrevistas para o Censo Agro-Pecuário.
Perguntei-lhe se eu tinha ouvido bem, se era
verdade que ela estava a fazer um censo agropecuário
numa ‘flat’ de segundo andar num prédio
urbano. Confirmou que sim.
Pensei cá comigo que alguém no INE andava a
ler o livro Quem Me Dera Ser Onda, do angolano
Manuel Rui, em que há uma família que cria um
porco numa “flat”. Isso pelo menos justificaria a
parte pecuária do censo. Agora a agrícola já é mais
difícil de compreender...
Mas a moça explicou-me tudo. O censo era para
saber que percentagem de pessoas, vivendo na
cidade, têm propriedades agrícolas e/ou pecuárias
fora dela.
Devo dizer que me pareceu uma curiosidade
bizarra mas, como não tenho formação estatística,
limitei-me a informar a jovem de que eu não tinha
nada disso. Ela tomou nota, numa ficha, do meu
nome e da minha falta de apetência para as actividades
de produção no campo e por ali demos a
entrevista por terminada.
Mas, enquanto ela descia as escadas eu fiquei a
pensar: quantas pessoas andariam naquele momento
a percorrer a cidade de Maputo (quem sabe se
também nas outras cidades do país) a fazer aquelas
perguntas?
Quanto esforço e despesa não foram gastos com
isso?
Não seria mais fácil ir pelos campos e perguntar
quem era o dono de cada propriedade e onde mora?
E há tanta coisa para ser feita por essas zonas
rurais adiante!
Não estaria esta simpática jovem melhor empregue
na Zambézia ou em Nampula esclarecendo os
camponeses sobre as questões da cólera e do cloro?
Não se evitaria assim que populações, que devem
ter festejado muito a construção dos respectivos
postos de saúde, depois os ataquem, em bandos de
mais de trezentas pessoas, saqueando e destruindo,
apenas porque ninguém lhes explicou bem as coisas
e, pelo contrário, parece haver quem se esforçou
por lhes explicar mal?
Sei que o Ministério da Saúde tem feito um
esforço de esclarecimento. Mas, é óbvio, esse esforço
não está a ser suficiente. Não creio que seja fácil
juntar trezentas pessoas para um acto de vandalismo
de grande violência. E, se isso foi possível, foi porque
o nível de ignorância era muito grande.
Com uma boa programação, e uma remuneração
justa, talvez não fosse difícil mobilizar jovens
urbanos, com razoável preparação académica, para
formar brigadas de esclarecimento para as zonas
rurais. Levando materiais de apoio, como cartazes,
fotos, até filmes, que essas tecnologias hoje começam
a ser de bastante fácil transporte e, em grande parte
do país, já existe energia eléctrica.
Os jovens gostam de aventuras e esse tipo de,
chamemos-lhe assim, serviço cívico poderia ser muito
útil para as comunidades visitadas e, igualmente,
para os próprios jovens que, em muitos casos, pouco
mais sabem da realidade do país do que aquilo que
os cerca na comodidade das cidades.
Mostrar-lhes que podem ser úteis, viver experiências
novas e terem, depois, histórias interessantes
para contar aos amigos pode ter uma influência
grandemente positiva na sua vida futura.
Mas, meu caro Belmiro, isto é paleio que não vai
influenciar ninguém, tenho a certeza. Talvez uns
poucos achem uma ideia interessante, antes de mudarem
de assunto e mandarem alguém a minha casa
para saber se, no meu bairro, tem havido casos do
conflito Homem/fauna bravia.
Um abraço para ti, do Machado da Graça.
O Esclarecimento (De: Azarias Marcos Nhazimo)
Caro Amigo Machado da Graça
Venho por este meio manifestar a minha simpatia pela
sua carta de 19 de Fevereiro, na qual manifesta espanto
pela realização do Censo Agro-Pecuário em “prédios”. É que
a preocupação colocada também nos aflige, bem como a
muitos concidadãos. O Censo da População indica que o
país possui um total de 3,6 milhões de agregados familiares
agrícolas, destes 600 mil (16,6%) residem em zonas urbanas,
incluindo prédios. Então, como aprofundar o conhecimento
desta realidade?
A sua carta contribui para o debate de ideias em torno desta
questão e, consequentemente, um melhor esclarecimento e
participação dos cidadãos no Censo Agro-Pecuário. Apraznos
notar que, apesar da estranheza e dúvidas, o meu caro
amigo colaborou com a “simpática jovem” inquiridora, dando
toda a informação por ela solicitada, num exercício claro de
cidadania. Quero imaginar situações de outros que,
eventualmente, reagiriam de forma diferente. É que mesmo
em coisas que parecem óbvias, nem sempre encontramos o
devido acolhimento de todos. Há casos de censos da
população e habitação com pessoas primando pela rejeição.
Casos de Censos Agro-Pecuários, em zonas obviamente
agrícolas com inquilinos de residências embrenhadas por
campos agrícolas e criação pecuária pautando pela não
colaboração e mesmo, rejeição. Felizmente são poucos
casos destes que para um universo de grandes números,
acabam não influenciando nos resultados finais.
Eu não concordo é quando o meu amigo diz não entender
nada de estatística. Porque logo de seguida apresenta uma
brilhante sugestão. De facto, há dois grandes métodos
utilizados para fazer censos agro-pecuários consistentes e
padrões reconhecidos internacionalmente.
O primeiro método é o que está sendo utilizado em
Moçambique e na generalidade de países com uma agricultura
dominada por pequenas propriedades agrícolas e pecuárias,
de base familiar. Consiste em partir de listas de agregados
familiares que no último censo da população e habitação
declararam possuir propriedades agrícolas e pecuárias e
avançar para as respectivas propriedades. Agora, como entre
o momento da realização do censo da população e o do
censo agrícola há um desfasamento de tempo, fazem-se
listagens de áreas seleccionadas aleatoriamente para
actualização das listagens do censo de modo a captar
eventuais mudanças ocorridas entre os dois censos.
O segundo método é justamente o inverso, é o por si proposto
e geralmente utilizado por países desenvolvidos, cuja estrutura
agro-pecuária é baseada em grandes propriedades de tipo
empresarial. Aqui, parte-se das propriedades agrícolas e
avança-se para os proprietários ou gestores que são depois
inquiridos. Este método até pode parecer fácil mas nem tudo
que parece é.
Para que o segundo método resulte em estatísticas
consistentes, evitando duplicações e omissões, utilizam-se
como marcos de amostragem bases cartográficas produzidas
por fotografias aéreas e satélites. Ora, este tipo de tecnologia
é, por um lado, bastante oneroso e, por outro, apresenta
limitações quando aplicadas para retratar propriedades
agrícolas e pecuárias de pequenas dimensões como são as
nossas.
Um outro assunto importante levantado na sua carta caberia
comentários em carta separada. É a questão crucial de qual
a importância das estatísticas para o desenvolvimento
nacional. Porquê gastar tanto dinheiro em produzir estatísticas,
quando o que a população quer mesmo é alimentação,
vestuário assistência médica, transportes entre outros bens
e serviços básicos?
A sua carta abre espaço para uma maior intervenção do INE
na construção duma cultura estatística mais esclarecida e
interventiva para o desenvolvimento nacional.
Faz-me lembrar alguém que no censo agrícola passado
questionou da utilidade de se perguntar aos agregados
familiares da província da Zambézia, quantos burros possui,
sabido que este tipo de animal não era de existência comum
naquelas paragens. De facto o censo veio a confirmar tal
estranha realidade. Soubemos depois pela comunicação
social que entidades governamentais, entre outras, passaram
a promover o fomento destes animais e a sua utilização na
agricultura e transporte rural. As estatísticas deram indicações
objectivas, o Governo e outros actuaram. Vamos neste censo
procurar medir a evolução do fenómeno.
Um grande abraço, do Instituto Nacional de Estatística.
Maputo, Fevereiro de 2010
* do Instituto Nacional de Estatísticas (INE)